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Escrever é uma questão de escolha

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Escrever também é a escolha teimosa de colocar palavras no papel (ou na tela) que sei que não interessam a ninguém.

De vez em quando eu me vejo às voltas com os pensamentos: porque escrever? pra quê escrever? de que adianta se ninguém vai ler? (esse último é particularmente perigoso quando estamos escrevendo com a intenção de vender livros e sermos lidos).

Em meio ao constante bombardeio de informações e opiniões é muito fácil que eu decida: não tenho nada a dizer e o mundo já está cheio de pessoas muito melhores e muito mais qualificadas do que eu falando sobre todo tipo de assunto, não quero somar aos ruídos. Mas ainda assim eu escrevo. Posso inventar mil e uma explicações, criar estórias elaboradas e profundas sobre a importância da escrita e da leitura. Posso até me convencer e acreditar que estou salvando vidas através da minha ficção. E tudo isso pode, sim, ser verdade. Mas nada disso me faz querer escrever.

Volto à estaca zero. Porque mesmo que eu escrevo?

A resposta pode ser super simples: por que eu quero!

Mas então por qual razão essa resposta me deixa satisfeito e insatisfeito ao mesmo tempo? De vez em quando a minha suspeita é que essa resposta é só o começo. Ou seja, é só o ponto de partida da minha escrita, mas querer é fraco demais para me fazer continuar e, principalmente, terminar. Eu QUERO escrever, isso é a mais pura verdade e uma das minhas mais constantes escolhas. E ainda assim, eu não levanto as 5h da manhã e escrevo por horas até ter que começar o meu expediente no trabalho. Ainda assim, eu não aproveito cada minuto livre para colocar mais uma palavra no papel. Aliás, porque mesmo que eu não escrevo compulsivamente quando desejo isso compulsivamente?

A frase: não escolher é também uma escolha; é famosa, embora eu não faça ideia de quem é o responsável por ela. Só sei que eu sou o responsável pelas minhas escolhas e é aí que reside uma das coisas que eu mais gosto no ato de escrever ficção: as escolhas. Cada segundo, cada palavra, cada erro de digitação, cada detalhe ou ausência de detalhe é uma escolha que eu tenho que fazer para seguir em frente. Às vezes é um ato inconsciente, outras é uma batalha de proporções homéricas. E muitas vezes é pura teimosia. Teimosia de colocar palavras no papel (ou na tela) que eu sei que não interessam a ninguém. Criar mundos, personagens, lugares que ninguém pediu para existirem, exceto a minha cabeça-dura que precisa ver e saber onde tudo isso se encaixa.

Mas ninguém lê mais hoje em dia. Até parece que alguém vai ler quando é muito melhor ver o filme. A atenção das pessoas está diminuindo. O segredo é fazer reels, ou shorts, ou tiktoks, ou snapchats, ou qualquer nova forma de vídeo disponível internet afora. São tantas constatações e afirmações ou certezas sobre a realidade do mundo e da vida que é muito fácil acreditar que sim, a escrita morreu. O escritor é peça de museu. E livros são só mais uma forma antiga e cruel de destruirmos mais ainda o meio ambiente.

E ainda assim, eu teimo e escrevo. Às vezes para ser lido. Normalmente para não adoecer e me sentir vivo. Muito de vez em quando para mandar uma mensagem para o mundo. Sempre, para chegar até o fim da história e, finalmente, saber como ela termina.

Não sei porque continuo fazendo essa escolha todos os dias. Não sei porque desejo publicar e vender livros e ser lido. Sei que tenho que escolher se o meu protagonista vai ou não se encontrar com o vilão. Sei que tenho que escolher se alguém caminha, anda, corre ou se arrasta. Sei que cada uma dessas escolhas (as ditas e as não ditas) me levam até o fim e buscam contar a melhor história que as minhas limitações atuais me permitem contar.

Sei que, para mim, escrever e escolher são sinônimos.


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