— 1… 2… 3… e, nnnggggaaaaah!!! — Pablo falou
— Mais uma vez. 1… 2… 3… e, nnnngggaaaah!!!
— Vamo lá gente, se todo mundo se juntar a gente consegue tirar essa pedra daí.
— Até parece. Você não viu o tamanho da entrada da caverna? A gente não vai conseguir tirar do lugar uma pedra desse tamanho. — disse Felipe
— Aposto que alguém colocou ela aí quando a gente entrou. — Jonas disse distraidamente.
— É uma pedra, ela rolou de cima da montanha e caiu aí. Deve estar meio solta, se a gente fizer força, com certeza movemos ela. — Pablo falou
— Não sei não. Acho que estamos presos aqui. Tá um breu e se essa pedra estivesse solta tenho certeza que daria para ver algum sinal de luz entrando pelas frestas. E eu não vejo nenhum. — disse Felipe.
Silêncio.
— Tá tudo bem. Nós não estamos presos aqui. Tudo vai ficar bem. Nós não estamos presos aqui. Nós não estamos presos aqui. — Felipe ouviu Silvia sussurrando a seu lado e imaginou a mulher tapando os ouvidos e balançando para a frente e para trás.
— Ali! — Pablo gritou — Tem uma luz ali.
— Você realmente acha que alguém consegue ver para onde você está apontando? — Felipe reagiu.
— Pra mim continua tudo escuro. — Jonas falou.
— Está tudo bem. Está tudo bem. Está tudo bem. — Silvia sussurrava.
Felipe se levantou e tateou com os pés, testando o chão antes de cada passo.
— Quem é? O que você está fazendo? — Pablo reagiu assim que ouviu o primeiro passo.
— Vou tentar seguir as paredes e ver até onde elas me levam. — respondeu.
— Nós não vamos ficar juntos? Ninguém devia andar por aí sozinho. — Jonas falou
— Então é só vocês virem comigo.
— Não dá pra ver onde você está. — Jonas disse.
— É só seguir o som da minha voz.
Felipe ouviu do seu lado esquerdo o som distante de pano se mexendo e passos lentos de alguém que claramente arrastava os pés sem tirá-los do chão de pedra.
— Alguém mais vai vir comigo?
Silvia soluçava. Os outros ficaram em silêncio.
— Eu acho que tenho uma lanterna. — Hugo falou.
— Você o quê? — Pablo gritou — Porque não disse isso antes moleque.
Um som seco ecoou pelas pedras.
— Ai! Quem fez isso? — o som dos passos arrastados de Jonas parou.
Ninguém respondeu.
— A-a lanterna. Depressa. Liga ela. — o som agudo da voz de Silvia era quase um grito.
Então do outro lado da caverna surgiu uma cabeça flutuante, recortada pela luz da lanterna que iluminou pouco mais do que o rosto de Hugo.
Passos.
— Aqui Hugo! Aponta a lanterna pra sua direita, eu estou bem aqui. — assim que Felipe falou, os passos pararam.
O garoto apontou a lanterna e Felipe levou as mãos ao rosto para se proteger da luz.
— Desculpa.
— Não tem problema, Hugo. Você consegue chegar até mim?
— Uhumm. — o rapaz confirmou.
— Beleza, mas cuidado onde pisa.
Todos assistiram a luz da lanterna se mover para o outro lado da caverna. E quando ela começou a se afastar todos resolveram segui-la, como mariposas atraídas pela chama.
— Alí, eu ouvi um som naquela direção. — Felipe, iluminado pela lanterna, apontou para a sua direita.
Hugo mirou a lanterna na direção indicada, mas a luz só revelou mais rocha.
— Acho que já andamos demais e não encontramos nada. Devíamos voltar e tentar tirar aquela pedra do lugar. — Pablo falou.
— Pode voltar. Eu prefiro continuar procurando uma outra saída a voltar pra lá. — Felipe respondeu — O que vocês preferem?
As vozes se misturaram e ecoaram, ininteligíveis pelo corredor de pedra por onde passavam.
— Eu vou com vocês. — Silvia falou assim que o silêncio surgiu. Os outros ecoaram seus sentimentos.
— Tá bom. Tá bom. Então vamos continuar procurando um buraco mais fundo nessa caverna. — Pablo reagiu à decisão da maioria.
Continuaram andando, ocasionalmente apontando a lanterna na direção de onde alguém indicava ter ouvido um som. Durante todo o percurso só encontraram rocha e mais rocha. Até a lanterna começar a falhar.
— Será que está com algum mau contato? — ouviu-se Hugo batendo a lanterna na mão.
— Ai. Não precisa apontar ela pra minha cara. — Jonas falou quando a lanterna voltou a acender.
— Desculpa. Foi sem querer. — disse Hugo
— Eu sei. A bateria dela deve estar quase no fim, nem adianta ficar balançando desse jeito. — falou Jonas.
— Acho que já andamos por horas, vamos descansar um pouco? — disse Felipe.
— Não! Aqui não. Vamos descansar quando a gente sair daqui. — Silvia reagiu.
Continuaram a caminhar por mais algum tempo, usando o que restou da bateria da lanterna para encontrar um lugar para se acomodarem. Fizeram um lanche, tateando no escuro para distribuir a água e a comida pelo grupo.
— E agora? O que vamos fazer? — quis saber Jonas.
— É. O que vamos fazer héin? Você trouxe a gente até aqui, Felipe, agora que estamos perdidos no meio da caverna, como vamos voltar para a saída? — Pablo reagiu imediatamente.
— Acho que não sou o único que precisa pensar em uma solução, e gostaria de lembrá-lo, Pablo, que não obriguei nenhum de vocês a virem comigo.
— O que é aquilo? — Hugo devia estar apontando para alguma coisa, mas naquela escuridão ninguém conseguiria ver.
— Vocês estão vendo uma luz ali na frente? — Silvia perguntou. Devia ter olhado em todas as direções quando ouviu Hugo.
— Sim. Mas é melhor… — Felipe começou a falar mas os passos apressados o interromperam — termos cuidado.
Ele tateou para pegar a mochila que deixara de lado e se levantou.
— Porque temos que ter cuidado? — ouviu a voz de Hugo às suas costas.
— Você ainda estava aqui? Pensei que todos já tinham ido pra lá. Temos que ter cuidado porque não sabemos o que vamos encontrar ali na frente. Duvido que aquela luz verde seja a luz do dia entrando na caverna.
— Será que não é melhor a gente ficar aqui? — Felipe sentiu Hugo segurar a sua camiseta.
— Agora que chegamos até aqui, acho que é melhor ficarmos todos juntos. Vamos?
— Tá bom. Eu confio em você.
Os dois seguiram na direção da luz esverdeada. Felipe tateando a parede ao seu lado e testando o chão a sua frente antes de cada passo, enquanto Hugo seguia logo atrás, segurando sua camiseta.
Haviam dois orbes de luz flutuando no meio da caverna, os orbes iluminavam um pequeno lago subterrâneo. Do ângulo certo via-se a linha que demarcava o fim da água e o começo do chão. Todo o resto da caverna estava encoberto pela escuridão.
— Alguém encontrou uma saída? — Silvia falou alto para todos a ouvirem.
— Será que vamos ter que mergulhar? — a silhueta de Jonas foi marcada pela luz quando ele se moveu em direção ao lago.
— Na água não! — Silvia gritou, e respirou fundo antes de continuar — Quero dizer, acho melhor a gente não entrar nessa água. E se a gente se molhar e depois tiver uma hipotermia? Vamos voltar? Acho melhor a gente voltar. Isso mesmo, eu voto pra gente voltar.
— A parede está seca. Essa água deve vir do subterrâneo, mas não parece ser uma nascente. — Felipe tateara em volta enquanto os outros conversavam.
— Vocês não vão ficar gratos? Encontramos água. Ainda bem que viemos pra cá. Pelo menos agora ninguém vai morrer de sede. — Pablo falou.
— Isssso messssmo! Deveriam ficar gratossss. A água matará a ssssua ssssede. — uma voz grave fez a caverna vibrar.
Silvia soltou um grito que foi abafado assim que ela levou as mãos a boca.
Felipe procurou na direção de onde viera o grito, mas o escuro tinha aumentado, se é que isso era possível, e agora só os dois orbes de luz verde eram visíveis. Flutuando no mesmo lugar.
— Quem está aí? — Pablo falou
— Quem sssserá? — a voz respondeu. Dava para ouvir o sorriso nela.
— Muito engraçadinho. Nós não estamos aqui para brincadeira.
— Massss eu esssstou. — o chão balançou levemente ao som daquela voz.
— Exijo que nos mostre o caminho até a saída.
— Vocccê? Exxxige? — uma vibração gutural que podia ser um riso abafado ou um pequeno terremoto os fez perder o equilíbrio.
Felipe sentiu sua camiseta sendo puxada e levou a mão naquela direção, segurando o braço trêmulo de Hugo.
— Consegue se levantar? — sussurrou.
— C-consigo. — a voz sussurrada de Hugo pareceu mais rouca, como se ele tivesse dificuldade para forçá-la para fora da garganta.
Os dois se levantaram, tentando fazer o menos possível de barulho.
— P-pessoal? Onde vocês estão? — a voz de Jonas veio de algum lugar a direita de Felipe.
— SHHHHH!!! — Silvia sibilou, do lado oposto.
— Vocêssss ssssão um grupo engraççççado. Invadem meu lugar de desssscansssso. Exxxxigem minha obediênccccia. E agora querem fugir?
As luzes verdes se apagaram e reacenderam na frente de Silvia. Iluminada daquele jeito, parecia que a imagem da mulher caída no chão fora recortada em meio a escuridão. Todos a viram levar as mãos a cabeça e gritar.
— Por favor. Por favor. Eu não fiz nada. Me desculpa, me desculpa. Eu não queria. — ela chorava e tateava o chão como alguém que tenta segurar os pés de uma pessoa que está indo embora — Não! Por favor! Eu não sabia que ia acontecer. — ela continuava engatinhando e esticando as mãos na direção dos pés da pessoa invisível — Por favor. Me desculpa. Eu não sabia. Eu não sabia. Volta. Se eu soubesse eu nunca teria te forçado a ir me ver. Me desculpa. Se eu soubesse do incêndio eu nunca…
Todos a viram cair na água e desaparecer sem fazer nenhum som. Os orbes verdes flutuaram de volta para o meio do pequeno lago. Ninguém reagiu. Pareceu que estavam hipnotizados pela cena que acabavam de presenciar.
— O que está acontecendo? — Jonas falou.
— Que merda você tá perguntando? Não viu aquela louca se matar na nossa frente? — Pablo gritou.
— Não. Eu não vi nada. — Jonas respondeu e começou a chorar — Eu não vi nada. Eu não vi nada.
— Jonas? — Felipe tateou pela parede úmida na direção de onde vinha a voz do rapaz.
— Eu não vi nada. Eu não vi nada. Eu não vi nada.
Assim que Felipe o alcançou puxou-o e o abraçou.
— Está tudo bem. — ele acariciou a cabeça do rapaz — Está tudo bem. Todos nós vimos. Não se preocupa, estamos aqui com você.
— Eu não vi nada. Eu não vi nada. — ele sussurrava e soluçava. Felipe sentia que o rapaz não tirara as mãos do rosto. — Eu não vejo nada. Eu não vejo nada.
— Está tudo bem. Estamos aqui com você. Você consegue se acalmar?
— Eu não vejo nada. — o rapaz repetia em meio aos soluços.
Felipe ouviu o som de uma mão batendo em metal e uma luz acendeu e o iluminou. Afastou Jonas para olhar melhor para ele. O rapaz tampava o rosto com as mãos e continuava repetindo: eu não vejo nada.
— Jonas. Está tudo bem. Olha pra mim. Temos um pouco de luz agora. Você vai conseguir ver.
O rapaz tirou as mãos do rosto e Felipe se segurou para não desviar o olhar. Seus olhos haviam desaparecido, deixando apenas a cavidade ocular vazia. Um líquido semitransparente brilhava contra a luz e escorria da cavidade para o rosto, deixando um cheiro de putrefação em seu caminho. A luz da lanterna desviou para o chão e Felipe teve certeza que Hugo tinha visto aquilo também.
— Você pode me ajudar? – falou para o rapaz, que soltou sua camiseta e tocou o braço que segurava o ombro direito de Jonas como sinal para abaixá-lo.
Os dois guiaram o rapaz e o ajudaram a sentar-se apoiado na parede. Onde ficou, sussurrando: Eu não vejo nada.
— Então era aqui que você estava seu moleque teimoso. — Pablo se aproximara deles seguindo a luz da lanterna.
A luz disparou pela sala num solavanco assim que o homem puxou Hugo pelo braço.
— Me dá isso aqui moleque. — o homem tomou a lanterna da mão do rapaz e a apontou na direção dos orbes verdes, que tinham desaparecido de novo.
A luz chegou até a beira do lago e não iluminou mais nada. Pablo tentou mais algumas vezes, antes da lanterna desligar, mas teve o mesmo resultado.
— Vocêssss ressssolveram começçççar a fessssta? — Felipe ouviu a voz grave sussurrar atrás dele.
Se virou para olhar, mas não havia nada ali.
— Por favor, vamos sair daqui. — Felipe sentiu Hugo puxar a sua camiseta e sussurrar baixinho.
— Você não vai a lugar nenhum, moleque. — Pablo gritou — Já estou cansado de você me desobedecendo, quando sairmos daqui vou te ensinar uma lição. Agora trate de vir até aqui e fique perto de mim como eu mandei você fazer quando saímos da hospedaria.
Felipe sentiu o rapaz soltar sua camiseta e ouviu os passos arrastados se afastarem na direção da voz do homem.
— Isssso messssmo. Nóssss gosssstamossss de criançassss obedientessss. — Felipe sentiu a vibração subir pelos seus pés.
Os dois orbes de luz verde voltaram a aparecer no centro do lago. O som de passos se afastando apressados para longe de onde Felipe estava ecoou pela caverna seguido de uma batida seca de algo atingindo a pedra.
— Ai. — Felipe ouviu a voz de Hugo.
— Levanta, moleque.
— Interessante como não demorou muito para você parar de fingir para os outros que é um bom pai, Pablo. — Felipe queria provocá-lo. Sabia que não podia deixar o rapaz sair dali sozinho com aquele homem. Na hospedaria ele vira, por acaso como o homem tratava o rapaz quando não havia ninguém por perto e prometera a si mesmo tentar ajudar Hugo.
— Eu sou um bom pai. E quem é você para me julgar? Pessoas como você que são o problema dessa sociedade. Intrometidas, se achando melhor do que todos. Aposto que cresceu num berço de ouro e a mamãe e o papai nunca te puniram adequadamente. Se eu puno esse moleque é porque ele merece.
— Criançasss dessssobedientessss e intrometidassss devem sssser punidassss. Não é, Pablo?
Os dois orbes de luz verde apareceram e iluminaram o homem por trás. Ele segurava o braço de Hugo e já dava pra ver as marcas de seus dedos nos braços do rapaz.
— Isso mesmo. É dever dos mais velhos ensinar os mais novos a serem obedientes e a seguirem as regras, para que eles não se tornem delinquentes.
— SSSSim. Elessss devem carregar assss liççççõessss na pele sssse for preccccisssso. — uma risada abafada reverberou pelas paredes e pareceu que toda a rocha também ria.
— Você vai mesmo nos mostrar a saída se eu fizer isso? — Pablo olhou para os orbes verdes que agora flutuavam a altura dos seus olhos.
— Mas… Aquela mulher morreu, não foi?
— O quê você está fazendo? Ele está na sua cabeça? Seja lá o que for que ele está te dizendo é mentira. — Felipe não teve coragem de se aproximar, mas gritou de onde estava.
— Você vai mesmo me mostrar a saída se eu fizer isso?
— Não! Isso é só uma voz na sua cabeça. Não é real. Acorda!
— Ai! Para, não me puxa assim. Ai. Você tá me machucando. — Hugo chorava e além da sua voz ouvia-se o som de algo grande sendo arrastado pelo chão.
—Cala a boca, moleque. É só você me obedecer que a gente vai sair daqui logo logo.
Os orbes verdes tinham voltado a aparecer no meio do lago. Felipe percebeu que o som de Hugo sendo arrastado se afastava dele e ia em direção ao meio da caverna. Então se apressou naquela direção, tentando fazer o menor barulho possível para não perder o rastro dos sons que os outros dois faziam.
— Me solta! Tá bom, eu vou com você! Pode parar. Tá doendo. Me solta. — Hugo gritava, mas Pablo não dava ouvidos e só repetia — Ele vai me mostrar a saída.
Felipe os alcançou a poucos centímetros do lago e segurou o braço do homem, que parou ao sentir o toque.
— O que você está fazendo? — a voz do homem deu um sinal de curiosidade distraída.
— Solta ele. — disse Felipe
— Não. Ele é meu filho, eu faço com ele o que eu quiser. Esse é o meu direito de pai.
— Você enlouqueceu de vez? Ele é só um garoto. O que vai fazer com ele?
— Ele vai me mostrar a saída.
— Como? O Hugo não sabe onde está a saída.
— Quem está falando desse moleque? Ele vai me mostrar a saída. — Felipe imaginou o homem apontando para os dois orbes verdes.
— Solta o Hugo. — Felipe apertou o braço do homem.
— Não. Eu preciso dele para descobrir a saída.
— Solta ele agora. Eu não vou deixar você jogar ele nessa água.
— Ele vai me mostrar a saída. — a voz do homem parecia suplicar e ele tentou se desvencilhar de Felipe mas não conseguiu.
— Ele vai te mostrar a saída em troca da morte do seu filho?
— Não. Eu não vou matar meu filho, eu nunca mataria ele, nem se ele merecesse. Meu filho não vai morrer. Ele me garantiu isso. Ele só precisa da ajuda de alguém jovem para conseguir me mostrar a saída.
— E você acreditou nisso? É óbvio que é uma armadilha.
— Eu não me importo. Quero sair daqui. Eu tenho que sair daqui. — Pablo gritou e tentou se soltar de novo.
Felipe forçou a mão do homem e o fez soltar o braço do rapaz.
— Não! — Pablo gritou e Felipe cobriu Hugo e esperou sentir um soco em alguma parte do seu corpo. Mas nada aconteceu.
— Eu te ajudo a levantar. — ele se abaixou e com cuidado ajudou o rapaz a ficar de pé e o apoiou em seu ombro.
— Obrigado. — só agora ele notara os soluços do rapaz e o choro em sua voz. Sentia, também, o quanto ele tremia sob seu braço.
— Como você pode fazer isso com seu próprio filho?
Silêncio.
— Pablo?
— Ele não esssstá maissss aqui. Encontrou a ssssaída. — a voz do dono daqueles orbes verdes carregava o sorriso que Felipe tinha certeza que estava no rosto daquele ser misterioso.
— Vamos Hugo. Nós precisamos sair daqui.
— Mas e o Jonas?
— Nós vamos pegar ele também.
Os dois começaram a se afastar do lago. Felipe tomou cuidado para não deixar o garoto, que ainda tremia, cair no chão.
— Vocêssss já vão? Massss nóssss ainda nem tivemossss a chancccce de nos conheccccer melhor, Felipe.
Ele parou. O som da voz mudara e falara com a voz de sua mãe que falecera recentemente. Respirou fundo e continuou a andar, ignorando aquele som.
— Voccccê não quer converssssar?
— Eu não tenho nada pra falar com você?
— A massss voccccê tem ssssim. — a risada abafada fez toda a caverna tremer mais uma vez.
Os orbes surgiram na frente de Felipe e Hugo, iluminando os dois e fazendo-os parar.
— Desculpa por não ser uma ajuda melhor garoto. — Felipe se virou para ele, segurou seus ombros e o olhou nos olhos cheios de lágrimas.
1…2…3… A luz se apagou, retornando a caverna a sua quietude escura.
